Porque não usar Facebook para fins educacionais?

Um colega me escreveu pedindo formular uma resposta sucinta a professores que dizem preferir Facebook ao Moodle para mediar as interações com seus alunos.

A favor

Como alguém que desde 2006 advoga pelo uso de tecnologia de redes sociais na universidade é claro que vejo muitas vantagens potenciais:

  • Um AVA como Moodle favorece a criação de ambientes online centrados no professor e no conteúdo, como em salas de aulas tradicionais, enquanto redes sociais podem favorecer metodologias dialógicas e promover autonomia dos alunos
  • No caso do Facebook, é perfeitamente válido assumir que todos os seus alunos já tem conta, conhecem bem a tecnologia e que isso vai diminuir a fricção da tecnologia, deixando tempo e energia livre para fazer o que importa, ensinar e aprender.
  • Empresas como Google e Facebook conseguem investir bilhões de dólares em engenharia de software. O sistema sempre vai estar disponível, vai funcionar muito bem e a experiência do usuário vai ser o mais agradável possível.

Contra

Mesmo sem negar as possibilidades positivas que tecnologia de redes sociais oferece na área de educação, é possível apontar vários riscos destas tecnologias e no uso do Facebook em particular.

  • Riscos para a privacidade e segurança informacional dos nossos alunos. Facebook é um dos mais importantes expoentes do chamado “capitalismo de vigilância”, um novo modelo de negócios que depende da criação e comercialização de perfis de pessoas. Pedir alunos se submeter a esse vigilância para participar das suas atividades didáticas é especialmente arriscado no Brasil, onde não há nenhuma lei de proteção de dados pessoais e empresas do tipo Facebook, Google e outros tem liberdade total de fazer o que querem com os dados gerados pelos seus usuários.
  • Pedir um aluno usar sua conta pessoal para participar num contexto educacional é problemático. Todos nós criam identidades ou se comportam diferentes dependendo do contexto social. Em sala de aula, pedimos nossos alunos se comportar de forma “acadêmica” e adotar uma postura diferente do que em outros contextos sociais. Há um risco grande quando uma mesma conta de mídia social é usado para contextos sociais tão distintos.
  • Facebook pode permitir a criação de ambientes educacionais, mas não é desenhado para tal. Empresas de mídia social como Facebook e outros otimizam para “engajamento” e o software reflete as necessidade de criar perfis comportamentais e psicológicos que podem ser usado para entregar propagandas personalizadas. Um problema relacionado é que organização do ambiente ou o acesso à história das interações podem não atender às necessidades do educador.

Do ponto de vista da instituição também há o problema da terceirização de uma atividade fim. Criar espaços educacionais, sejam online ou não, é o que uma universidade faz e é sua razão de ser. Parcerias com empresas de tecnologia podem ser justificadas, mas é preciso considerar a seguinte problemática.

  • Há o o risco de atrofiar a capacidade de universidade fazer gestão dos seus próprios espaços educacionais e assim prejudicar ela mesma inovar na área de tecnologia educacional.
  • Se as interações entre educadores, alunos, material e atividades didáticas são mediados em plataformas fora do controle da universidade, isso geralmente significa, além de não poder garantir a privacidade como mencionado acima, que o pessoal e pesquisadores da universidade  não terão acesso, poder arquivar ou analisar os dados gerados pelas interações dos alunos com estas plataformas. Isso vai prejudicar a capacidade de fazer pesquisa na área das ciências de aprendizagem e criar sistemas que fazem uso educacional destes dados. A falta de transparência e impossibilidade de resgatar o histórico das interações também deve ser considerado um risco para o gestor da instituição.

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